FOMO: o medo de estar perdendo algo na era da performance

Nos últimos anos, a expressão FOMO — sigla para Fear of Missing Out, ou medo de estar perdendo algo — ganhou destaque não apenas nas redes sociais, mas também nos consultórios psicológicos. Mais do que uma inquietação passageira, o FOMO é uma experiência emocional complexa, caracterizada pela sensação de que outras pessoas estão vivendo momentos mais interessantes, prazerosos ou significativos do que nós, e que estamos ficando para trás.

Esse medo pode gerar sintomas ansiosos, como inquietação, dificuldade de concentração, insônia, e até reações físicas — como mal-estar e aceleração cardíaca — diante da possibilidade de não participar de um evento, conversa ou experiência social. Embora possa surgir em qualquer faixa etária, tem se mostrado especialmente presente entre adolescentes e jovens adultos, que estão em fases cruciais de construção da identidade e dos vínculos sociais.

Do ponto de vista da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o FOMO pode ser compreendido como resultado de pensamentos automáticos disfuncionais, tais como:

  • “Se eu não estiver presente, vão me excluir.”
  • “As pessoas vão se divertir mais sem mim.”
  • “Essa é uma chance única, e se eu perder, nunca mais terei outra.”

Esses pensamentos geram emoções intensas e comportamentos impulsivos, como a necessidade constante de checar o celular, comparecer a eventos mesmo sem vontade, ou a sensação de culpa e tristeza ao ver postagens de outras pessoas.

Mas o fenômeno do FOMO não pode ser compreendido apenas em nível individual — ele é também um sintoma social.

Foucault, Han e o contexto sociocultural do FOMO

O filósofo Michel Foucault (1975) descreveu a transição de uma sociedade disciplinar — onde instituições como a escola, a fábrica e o hospital regulavam os corpos por meio da vigilância — para uma sociedade de controle mais sutil. Inspirando-se nesse pensamento, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2015) propõe que vivemos hoje na “sociedade do desempenho”, onde não somos mais vigiados por forças externas, mas movidos internamente pela exigência de sermos produtivos, disponíveis e bem-sucedidos o tempo todo.

Nesse contexto, o FOMO emerge como efeito colateral de uma cultura que valoriza o “estar em tudo”, “saber de tudo” e “aproveitar cada oportunidade” — uma cultura onde o descanso pode parecer preguiça e a ausência pode ser interpretada como fracasso.

As redes sociais, nesse cenário, funcionam como vitrines cuidadosamente curadas de momentos felizes, conquistas e eventos sociais. O outro parece estar sempre “vivendo mais”, e essa comparação constante gera insatisfação e um desejo de compensar o que (achamos que) estamos perdendo.

FOMO na adolescência e nas relações

Adolescentes, por estarem em processo de construção da autoestima e da identidade social, são especialmente vulneráveis ao FOMO. Sentir-se excluído de um grupo, não participar de uma festa, ou simplesmente não estar “atualizado” com as conversas, pode despertar angústias intensas. E com o celular sempre à mão, a comparação nunca para.

Como consequência, observamos impactos no desenvolvimento emocional e nas relações interpessoais: dificuldade de foco, menor tolerância à frustração, prejuízo na escuta ativa e uma relação cada vez mais ansiosa com o tempo e com a presença.

Caminhos possíveis

Mais do que proibir o uso das redes ou demonizar a tecnologia, talvez o maior desafio contemporâneo seja reconstruir o valor da presença real. Ensinar, como terapeutas, educadores ou cuidadores, que:

  • Não estar em todos os lugares é humano.
  • Desconectar pode ser necessário.
  • Sentir tédio também ensina.
  • Pertencimento não se mede em curtidas.

Na prática clínica, podemos trabalhar o FOMO por meio de:

  • Psicoeducação sobre comparação social e os efeitos das redes;
  • Identificação e reestruturação de pensamentos automáticos relacionados ao medo de exclusão;
  • Treino de habilidades de enfrentamento emocional diante da frustração e da ausência;
  • Estímulo ao autoconhecimento e valorização do tempo subjetivo, fora da lógica da performance constante.

Na era do excesso, talvez a maior forma de resistência seja mesmo o essencial: estar presente, sentir, se permitir pausar — e saber que isso é suficiente.

Referências

  • Foucault, M. (1975). Vigiar e punir: nascimento da prisão.
  • Han, B.-C. (2015). A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes.
  • Przybylski, A. K., Murayama, K., DeHaan, C. R., & Gladwell, V. (2013). Motivational, emotional, and behavioral correlates of fear of missing out. Computers in Human Behavior, 29(4), 1841–1848.


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